Não se trata de debruçar-se sobre livros ou meramente de decodificar palavras. A leitura parte de um processo dialógico, permeado de significados, discursos e contextos” escreve Simone Oliveira

Uma chave, um pé de cabra…A leitura é uma ferramenta tão poderosa, capaz de abrir/arrombar tantas portas que se torna um desafio abordar, neste texto, seu papel e descrever a dimensão que ela pode alcançar.

Não se trata de debruçar-se sobre livros ou meramente de decodificar palavras. A leitura parte de um processo dialógico, permeado de significados, discursos e contextos. Assim, o filósofo Bakhtin (1997) ressalta a presença do interlocutor e o caráter intencional da linguagem. Quando nos descobrimos capazes de refletir criticamente sobre uma notícia veiculada na TV, reagimos a uma postagem nas redes sociais, nos emocionamos ou rimos de um filme, compramos ou não um determinado produto anunciado na propaganda, somos atraídos por palavras sedutoras, reconhecemos o olhar de aprovação ou reprovação de alguém, percebemos a manipulação ou a ironia na fala do outro, entre outras situações, estamos nos colocando na condição de leitores. 

Com o passar do tempo, o ser humano desenvolveu e aprimorou diversos tipos de linguagem para se comunicar. Nesse sentido amplo, Paulo Freire (1989), importante estudioso na área da educação, cunhou o termo “leitura de mundo” e reforçou o papel transformador que o conhecimento confere aos indivíduos, dando-lhes autonomia e empoderamento. Há ainda o caráter lúdico e criativo que o ato nos proporciona. Só mesmo quem já se permitiu mergulhar na leitura de um livro sabe dizer o quanto podemos desenvolver nossa imaginação, ativar nossa memória, vivenciar outras realidades e ampliar nossa percepção sobre o mundo. É maravilhoso!

Com o advento das novas tecnologias e das redes sociais, a geração atual está cercada por informações e exercita a leitura e a escrita, (principalmente com o foco comunicativo) com maior frequência, se comparada às gerações anteriores. Entretanto, com que profundidade ou nível de criticidade? Regidos pelo imediatismo, pela velocidade e pela efemeridade das coisas, os jovens de hoje precisam ser estimulados a uma imersão na leitura, com concentração e significado, que dialogue com seu universo. As plataformas digitais podem contribuir para essa aproximação entre o livro e o leitor. 

Além disso, a cada um de nós, que reconhecemos a importância da leitura, cabe o desafio de convidar alguém a espiar pela fechadura, quem sabe abrir uma fresta da porta. Mas, primeiramente, é preciso conquistar os leitores, seduzi-los, convencê-los a usar essa chave. Depois de aberta, é quase impossível voltar à clausura da ignorância, da alienação e da apatia. E, você? Quantas portas já abriu hoje?

Simone Oliveira Vieira Peres é professora da rede municipal de ensino, licenciada em Letras (UNEMAT), mestra em Estudos de Cultura Contemporânea (UFMT) e pós-graduanda em Docência para o Ensino Técnico e Profissionalizante (IFPA).