foto: entretodasascoisas.com.br

Uma inverídica história de amor vivida por um falso poeta em Canaã dos Carajás

Ela era ‘new style demais’. Eu, vintage. Ela falava sobre o futuro com risadas cheias de expectativa, gargalhava sem medo do que estava por vir. Eu, falava sobre o passado, sobre tudo o que vivi por medo do que tinha pela frente – eu não sabia lidar com o presente, nem com o futuro; o passado era fácil. Ela sabia o que fazer, sempre soube. Quando a conheci, junho de 2017, ela se apresentou com segurança. Melancólico e anti-social a cumprimentei de cabeça baixa, sem nunca olhá-la nos olhos. Ela perguntou se tava tudo bem comigo. “Não”, calei.

Quando a encontrei, em um barzinho na Pioneiros, a busquei nas redes sociais desesperadamente. Encontrei. Por lá, com mais segurança, conversamos sobre tudo. Perguntei se ela bebia. Ela respondeu que sim e avisou que nunca (ou quase nunca) ficava bêbada. Mais tarde descobri que era verdade.

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Nos falávamos todos os dias, nos encontrávamos em auditórios, jardins e outras horas ruins do dia. Ela tinha sempre um sorriso de quem podia qualquer coisa. Eu, calado, a respondia com um nervosismo cada vez maior. No trabalho, a gente se esbarrava sempre e ela sempre se esforçava para puxar assunto. Vê-la era o ponto alto do meu dia.

Passamos a frequentar as mesmas baladas, os mesmos barzinhos, dividir as mesmas mesas, rir das mesmas besteiras. Mas tem uma coisa que não sai da minha cabeça: a menina por quem me apaixonei tinha um amor inexplicável pela dança. Sempre que bebíamos, ela se levantava e me puxava para dançar. Eu, travado. Nunca ia.

Ela dava de ombros e, linda tal qual era, dançava com outros. Eu a amava e sangrava por dentro toda vez que isso acontecia: sempre. Nunca esqueço das palavras saindo da sua boca: “Por que você não vem dançar comigo?” Eu respondia que não dava, que eu tinha trauma, que eu era ‘Beatlemaníaco’ demais, chato demais… Ela ria e continuava a dançar.

Incapaz de compreender a lógicas dos “dois passos para lá, dois para cá”, seguia decepcionando. Enchia a cara, ela também, nos beijamos algumas vezes, mas aquela amor era incapaz de se concretizar. Como amar em Canaã sem saber passos de forró?

Um dia a pedi em namoro, assim direto. Sempre segura de si, ela me deu um abraço e me fitou com carinho: “não vamos estragar a amizade que construímos”.

Compreendi.

Nunca passamos disso. Ainda a amo e ela ainda me chama para dançar sempre que bebemos, ou seja, quase todos os dias. Somos amigos inseparáveis.

Mas a dor que existe no meu peito, de uma saudade por coisas que não aconteceram e nem vão acontecer, é incurável, intraduzível. Aprendi a amar forró e a suportar os infinitos barzinhos de infernais sertanejos universitários. Ainda a vejo dançar, ainda recuso o seu eterno convite. Virou piada entre a gente até. O eterno pedido a ser recusado.

Foda.

Pior que ela é linda dançando, bebendo, rindo. Não vou aprender a dançar.

Te amo, amigo – ela diz.

Te amo – respondo com meu coração.

Pra sempre.

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