Por Simone Oliveira*

Da divisão, nasceu o Caos.

Era visível a herança genética.

Conferi com cuidado, antes de entregar aos pais (ao país?).

Eram os olhos da Esquerda e o nariz imponente da Direita.

Seu choro inconsolável atravessava os corredores do hospital, do bairro, da cidade e não respeitava nem mesmo as fronteiras estaduais.

O menino nasceu com os pulmões fortes e com sangue nos olhos!

Reverenciado pela mídia e pelas redes sociais,

o seu nascimento alimentava as notícias,

ora com requintes de tragédia e circo,

ora com diagnósticos pontuais e promessas de um crescimento saudável e até promissor.

Desde cedo, o Caos não pegou o peito,

sem paciência,

e a teta também já havia secado,

O pai, um incompetente, não se responsabilizava pelo cheiro de merda.

Assim, crescia sujo e com fome,

embora sempre penteado nas fotos.

Vivia de colo em colo, sempre aos berros,

-Isso é cólica!

-Isso é manha!

-Isso é ausência dos pais!

-Isso é um câncer terminal!

Os parentes e amigos se dividiam em tantas opiniões,

que, aos poucos, perdiam a primeira infância,

os primeiros passos, as primeiras palavras…

Sem cuidados, sem controle,

Ganhou projeções internacionais,

O bastardo confirmava sua vocação, uma vergonha

Não haviam discursos, medidas provisórias, reformas, panelaços, forças militares, nem mesmo o futebol e o carnaval conseguiam dar um jeito na criança!

Depois de um tempo,

foi cadastrado por alguém no Bolsa Família,

mas sua carteira de vacinação sempre esteve em atraso,

Hoje, corre solto pelos becos e nos grandes centros,

nunca foi à escola,

mas tem seguidores no Facebook, no Instagram, no Twitter e é bem informado pelo WhatsApp.

Reconhece a gravidade do novo Coronavirus, mas prefere discutir se a pandemia ocorreu ao acaso ou se é fruto de uma conspiração chinesa.

Não sabe se segue a rotina nas ruas ou se fica em casa de quarentena.

Não tem muita paciência para lavar as mãos o tempo todo.

Não pensa em usar máscaras, porém, de repente, se virar “modinha”, quem sabe.

Ainda não decidiu se concorda ou não com o uso da Hidroxicloroquina,

(tem vergonha de dizer que desconhece o assunto, embora faça posts e compartilhe mensagens relacionadas)

Apresenta tosse seca e febre já há algumas semanas,

mas, como estamos entrando na temporada de gripes,

acredita que ainda está cedo para se preocupar!

Simone Oliveira Vieira Peres

Professora da rede municipal de ensino, licenciada em Letras (UNEMAT), mestra em Estudos de Cultura Contemporânea (UFMT) e pós-graduanda em Docência para o Ensino Técnico e Profissionalizante (IFPA).

Publicidade