Tava tudo em chamas. Fogo no pasto, fogo em terrenos, fogo na VS-52, fogo no Novo Brasil. É tanto bicho morto. Achei um jabuti, de certo mais velho que eu, carbonizado – nem quero pensar no quanto ele sofreu. A dor deve ter sido dos diabos.

Gente meio que esquece que bicho também sente dor, dor de queimadura é foda, por exemplo. Imagino dor de carbonização. Mas o bicho tava consumido pelas chamas; deu pra ver que era jabuti pelo casco – o resto não tinha mais.

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Canaã dos Carajás. Chega o verão todo o ano, do jeito que tem que ser, e o fogo se alastra. A fumaça na serra. A fumaça que invade as residências. As cinzas da morte. Cinzas que tomam conta dos quintais. O fogo que é morte na certa.

Eu vi o fim do mundo. Era tudo cinza, quente, fumaça

Eu vi o fim do mundo e ela era a apatia na morte do jabuti no Novo Brasil. O fim do mundo é o cheiro de fumaça que não sai dos cabelos de ninguém. O fim do mundo é o sangue que está em nossas mãos.

O fim do mundo é esse cheiro de morte que a gente tem. O fim do mundo é aqui, agora, na fumaça.

A gente se implode. A gente morre carbonizado por dentro também.

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