Me disseram que já é noite e que à noite os bárbaros vêm. Que o frio e o silêncio são marcas registradas do povo bárbaro, que quando descem a ladeira de Canaã, saqueiam, matam, queimam tudo o que veem pela frente. Tive medo da noite chegar, dos bárbaros virem, dos bárbaros se aproveitarem da inocência dos povos do Novo Brasil, Vale da Benção e Parque dos Imigrantes. Pessoas que seriam os primeiros a morrer em um eventual saque bárbaro na Terra Prometida.

Tive medo da noite. Tive medo de ver sonhos caírem por terra. Tive medo que os bárbaros chegassem e transformassem Canaã em um puxadinho de seus extensos e imorais impérios. Já imaginou o nosso povo nas mãos do carrasco imperador bárbaro? Ah, que desastre seria.

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Já imaginou uma história de luta, de suor se perder nas mãos de bárbaros que só querem ouro e poder. Essa gente que não é daqui, que não se importa, que não ama ninguém.

Mas os bárbaros não saquearão Canaã! Esse povo lutador, esse povo que renasce das cinzas, que se reinventa mesmo diante de uma pandemia, esse povo que resiste ao poder devastador da Covid, é conhecedor de sua própria história. E quem sabe de onde veio não se rende facilmente aos impropérios bárbaros.

Tive medo da noite, medo do frio, medo do silêncio, da apatia, da seriedade das fisionomias, dos oradores que derramam seus verbos e ofensas diante da distorção dos fatos; tive medo, mas, agora que escurece, percebi que os bárbaros podem descer a ladeira, mas não chegarão a lugar nenhum.

E há gente, querido Kaváfis, com boas notícias além da fronteira dizendo que não há mais bárbaros. Mas eu sei que há. O imperador deles está quieto, nos bastidores, mas eles virão quando for o tempo de ser. No entanto, essa boa gente está disposta a sangrar e morrer para não entregar Canaã nas mãos de abutres.

Os bárbaros não são solução.

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