Enganam-se muito os iludidos que imaginam que Deus, encarnado em Cristo Jesus, voltará um dia para salvar os seus. Pura ilusão, pura esperança que toda a dor do existir seja recompensada com flores eternas e punhais de justiça do criador. Balela.

Deus já voltou e volta todos os dias. Deus é uma mulher preta, refugiada, com filhos pra criar, gay e moradora de um conjunto habitacional. Dói acabar com a ilusão de que o Todo-Poderoso é um homem machista, homofóbico e eleitor de Bolsonaro, mas a verdade nua e crua é essa.

Deus, criador, foge dos estereótipos, foge da religiosidade e está presente onde o seu povo, seja ele qual for, está. Deus, encarnado em Jesus Cristo, voltou várias vezes: na idade média como bruxa e foi queimada, como cientista e foi pra fogueira, como judeu, na II Guerra (só pra ironizar) e foi morto por asfixia, como comunista e foi morto pela ditadura militar.

Deus volta todos os dias das formas mais simples, mais fortes e mais ignoradas. Deus, quando volta, ou seja, todos os dias, escolhe as coisas loucas para confundir as sábias e o inexplicável para testar o afeto e a empatia dos seus seguidores. Todo cristão já deveria saber que Ele É e sempre FOI e jamais optaria pelos caminhos mais simples para estar ao lado da sua criação.

Conforme canta Ariana Grande, ‘God is a woman’. Concordo. Além disso, Deus é um trabalhador do semiárido nordestino, um caboclo no Pará, uma lavadeira de roupas no Acre, uma trans na Avenida Paulista, um comunista na Alemanha.

Deus tem a cara do seu povo, da sua criação e está no meio de todos nós em cada sofrimento, em cada transgressão, em cada preconceito. Deus não é adepto da obviedade crida no decorrer dos séculos. Deus está além. O preconceito, aquém.

Fechar as portas para os refugiados, espancar gays, torturar criminosos é fazer o mesmo com Deus.

Você, cristão, deveria saber que Ele é tudo isso e muito mais.

(Ilustração: Gabriel Rodrigues)

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