Se nos Estados Unidos, berço do liberalismo econômico e do estado mínimo, uma reforma agrária foi feita para beneficiar os negros após o período escravista, no Brasil, a abolição foi ‘feita com os pés’, de forma preguiçosa e covarde

“Se os brasileiros admitissem o quão racistas são, a gente teria um país que reconhece o problema e que poderia iniciar um processo de reestruturação moral e social.”

Ouvi essa frase de um professor há alguns anos em uma conversa num botequim em tempos de liberdade e crescimento econômico. Jovem tal qual era não entendi muito bem o que o nobre educador queria me dizer com tal frase. Hoje, no entanto, consigo compreender.

Consigo compreender, pois aprendi sobre o racismo estrutural e o quão violento isso é. Aprendi sobre a pobreza no Brasil, sobre a desigualdade, sobre representatividade.  Compreendo que, entre os brasileiros mais miseráveis, os negros são maioria – 75%, que os ricos são brancos em maioria – 70%, e que nem 20% dos deputados são negros. Tudo isso em um país em que 56% da população é preta ou parda.

Aprendi que isso é racismo estrutural, o pior tipo. Neste 13 de maio, 132 anos após a Princesa Izabel supostamente libertar os escravos, há muito pouco o que se comemorar, de fato. O Brasil é um dos países mais racistas do mundo, apesar da negritude de sua gente. É uma afirmação difícil, mas lamentavelmente verdadeira.

Podemos falar do inegável fato de que negros têm acesso, sim, à educação básica, mas a evasão escolar é gigantesca entre eles. Sim, as salas de aula vão embranquecendo com o passar das séries. Também poderia citar a ausência história de ministros negros no STF, bem como apenas um presidente negro em toda história – Nilo Peçanha.

Nos Estados Unidos, berço do liberalismo econômico e do estado mínimo, uma reforma agrária foi feita para beneficiar os negros após o período escravista, no Brasil, a abolição foi ‘feita com os pés’, de forma preguiçosa e covarde. Sem ter pra onde ir, os negros migraram para as periferias das cidades, daí surgiram as favelas – e começa a se explicar a pobreza, a violência e o fato da maioria da população carcerária no Brasil ser negra.

Mas tudo isso já foi dito. Neste 13 de maio, não há o que se comemorar. Não tenho esperanças de um país sem racismo estrutural, acredito que isto é intrínseco a nós. Mas é sempre bom refletir a cada ano sobre a ferida da escravidão para o povo brasileiro, que ainda continua aberta e, dificilmente, vai sarar.

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